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A Era dos Fungos

A Era dos Fungos

A Era dos Fungos

Pleistoceno, Cambriano, Antropoceno e outras eras são descritas pela Paleogeografia como períodos geológicos, divididos em ‘blocos’ de tempo e onde ocorreram predominâncias de certas condições e espécies viventes no planeta Terra. Podemos pensar em Micoceno

Mudanças climáticas, doenças fúngicas e um hospital brasileiro na linha de frente de um mundo em aquecimento.

Em outubro de 2025, profissionais de saúde e acompanhantes de pacientes na ala de oncologia do Hospital Santa Rita de Cássia, em Vitória, capital do estado do Espírito Santo, no Brasil, começaram a relatar doenças respiratórias: tosse, febre, fadiga e falta de ar.

Os tratamentos que normalmente funcionavam falharam, e a recuperação foi lenta ou inexistente. Com o aumento do número de pessoas que adoeceram, ficou claro que o problema não era individual, mas sim que algo estava circulando pelo próprio hospital.

Após semanas de investigação , as autoridades de saúde estaduais confirmaram 33 casos de histoplasmose, uma infecção causada pelo fungo Histoplasma capsulatum . O organismo, comumente encontrado em solos enriquecidos por excrementos de pássaros e morcegos, havia entrado em um ambiente clínico que se supunha estar isolado da exposição ecológica.

Isso não foi apenas uma falha de higiene. Foi um sinal de que a mudança ambiental estava atingindo locais projetados para mantê-la afastada. Era um organismo mais antigo que a própria humanidade. Um que aprendeu a sobreviver em um mundo que está mudando rapidamente e superaquecendo.

O surto não foi uma anomalia; foi um aviso.

O reino invisível

Os fungos são essenciais para a vida na Terra. Eles decompõem a matéria orgânica, reciclam nutrientes e sustentam os ecossistemas vegetais. Sem eles, os solos se tornariam inférteis e as florestas entrariam em colapso. No entanto, eles continuam sendo um dos organismos menos estudados e menos compreendidos da Terra.

Os cientistas estimam que possa haver entre 1,5 e 3,8 milhões de espécies de fungos, e menos de 10% foram formalmente descritas. Menos ainda são estudadas quanto ao seu impacto na saúde humana.

Historicamente, essa lacuna no conhecimento não tem sido particularmente perigosa, já que nossos corpos são protegidos pelo calor. A temperatura média do corpo humano, em torno de 37 ° C, cria uma barreira biológica natural, à qual a maioria dos fungos simplesmente não conseguiria sobreviver.

Porém, com o aumento da temperatura global, essa barreira está enfraquecendo. Os fungos estão se adaptando e espécies antes restritas a ambientes mais frios estão evoluindo para tolerar temperaturas mais altas. Algumas já são capazes de sobreviver a temperaturas mais próximas às do corpo humano.

O que está mudando não é o comportamento dos fungos, mas as condições ecológicas que antes o limitavam.

Adaptação

As mudanças climáticas não criam doenças fúngicas do nada. Elas remodelam as condições em que os fungos vivem, se espalham e persistem. Temperaturas mais quentes expandem a distribuição geográfica de muitas espécies. Por exemplo, mudanças nos padrões de chuva alteram a umidade do solo, permitindo que fungos prosperem em locais onde antes não conseguiam. Inundações transportam esporos pela paisagem, e secas ressecam o solo, permitindo a entrada de partículas microscópicas em construções que nunca foram projetadas para impedi-las.

Os fungos são sobreviventes excepcionalmente bons, pois seus esporos são leves, resistentes e capazes de viajar longas distâncias. Em um clima instável, essas características de sobrevivência se tornam um risco para a saúde pública.

Pesquisadores médicos reconhecem cada vez mais as mudanças climáticas como um fator impulsionador do surgimento de doenças fúngicas. Uma revisão publicada na revista Therapeutic Advances in Infectious Disease alerta que o aumento das temperaturas e a perturbação ecológica estão redesenhando o mapa global das doenças.

Manifestações e estudos necessários

Já vimos como isso se manifesta com a Candida auris. Identificado pela primeira vez em 2009, esse fungo multirresistente já foi detectado em hospitais de mais de 50 países em seis continentes. Muitos pesquisadores acreditam que o aumento das temperaturas ambientais pode ter contribuído para que ele superasse as barreiras térmicas que antes impediam os fungos de infectar humanos.

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Nem todo fungo é patogênico. Muitos são usados pelo homem há tempos.
(Img Web)

 Dr. Norman van Rhijn,  da Universidade de Manchester,  disse :

As vítimas

O Histoplasma capsulatum está presente nas Américas há muito tempo. A infecção ocorre quando os esporos são inalados, frequentemente após o solo ser revolvido por construções, vento ou mudanças na ventilação.

Em Vitória, os investigadores acreditam que os esporos entraram no Hospital Santa Rita de Cássia através do sistema de ar condicionado ou de vulnerabilidades estruturais. Uma vez lá dentro, encontraram as pessoas menos capazes de resistir à infeção: doentes oncológicos imunocomprometidos e profissionais de saúde sobrecarregados.

A histoplasmose muitas vezes se assemelha à gripe ou à pneumonia, atrasando o diagnóstico. Em indivíduos saudáveis, pode se resolver sem tratamento, mas em pessoas vulneráveis, pode se disseminar para além dos pulmões e ser fatal. Padrões semelhantes também estão surgindo em outros lugares. Doenças fúngicas estão aparecendo em novas regiões, ligadas ao aumento das temperaturas, à perturbação ecológica e à infraestrutura precária.

Desigualdade

Os mais expostos raramente são os mais responsáveis. Profissionais de saúde, pessoal de limpeza, funcionários de nível básico e acompanhantes de pacientes são frequentemente os primeiros afetados e os últimos a serem protegidos. Muitos vivem em bairros mais quentes, dependem de sistemas de saúde pública com poucos recursos e não têm acesso a diagnóstico precoce ou licença remunerada.

As comunidades menos responsáveis ​​pelas emissões de combustíveis fósseis são as que estão sendo forçadas a respirar as consequências primeiro. Isso é injustiça climática, manifestando-se em nível microbiano.

Apesar das crescentes evidências de risco, as doenças fúngicas continuam negligenciadas. Existem poucos medicamentos antifúngicos, a resistência está aumentando e a vigilância é limitada. O financiamento para pesquisa e a atenção política permanecem mínimos, principalmente quando comparados às ameaças virais que afetam populações mais ricas.

Um aviso

O surto no Hospital Santa Rita de Cássia não é apenas uma história médica. Trata-se também de uma história ecológica. Mostra como a perturbação ambiental não fica confinada às paredes do hospital. Ela penetra nos edifícios através dos sistemas de ventilação, das fragilidades da infraestrutura e da ideia (errada) de separação entre a saúde humana e o mundo natural.

As mudanças climáticas são frequentemente discutidas em termos distantes, como o derretimento das calotas polares, as queimadas nas florestas e a elevação do nível do mar, mas seus efeitos já estão presentes em hospitais, locais de trabalho e pulmões. A saúde humana depende de ecossistemas estáveis ​​e, quando esses sistemas se desestabilizam, os padrões de doenças mudam. Os esporos que circularam por um hospital no Brasil carregavam uma mensagem que não podemos ignorar.

As mudanças climáticas estão remodelando as doenças, e as instituições criadas para nos proteger já não estão imunes às consequências.

De Londres – Inglaterra para Ciência&VocêMônica Piccinini é Jornalista Ambiental

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