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Ideais Imprevisíveis na Pesquisa Científica

Ideais Imprevisíveis na Pesquisa Científica

Ideais Imprevisíveis na Pesquisa Científica

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O ideal proclamado é grandioso, mas o gesto político real é vacilante. A retórica enaltece a pesquisa; a gestão a enfraquece.

Falar em “ideais imprevisíveis na pesquisa científica” é reconhecer uma das contradições mais dolorosas do nosso tempo. A ciência é frequentemente exaltada no discurso oficial como patrimônio estratégico da nação, como base da soberania, da inovação, da segurança alimentar, da saúde pública e da capacidade de futuro.

Porém, na prática, é submetida a uma trajetória governamental marcada por descontinuidades, omissões, contingenciamentos, desmontes institucionais e decisões administrativas que corroem lentamente suas bases materiais e humanas. O ideal proclamado é grandioso, mas o gesto político real é vacilante.

A ciência depende de estabilidade temporal. Não se constrói pesquisa séria sob a lógica do improviso permanente. Laboratórios, coleções, campos experimentais, séries históricas, equipes multidisciplinares, formação de jovens pesquisadores, redes de cooperação e estruturas de apoio técnico não florescem sob surtos episódicos de interesse governamental.

Exigem continuidade, financiamento persistente, planejamento de longo prazo e, sobretudo, reconhecimento institucional duradouro. Quando governos sucessivos tratam a pesquisa como setor acessório, como despesa ajustável ou como vitrine retórica desprovida de sustentação concreta, quebram não apenas orçamentos, mas também a temporalidade própria da ciência.

Nos institutos de pesquisa, essa realidade se manifesta de forma ainda mais severa. Diferentemente de estruturas universitárias mais amplas, muitos institutos dependem diretamente da vontade administrativa do Estado para manter seus quadros, suas agendas estratégicas, sua infraestrutura e sua razão pública de existir.

Como agem os sabotadores sociais

São instituições vocacionadas à pesquisa aplicada, à produção de conhecimento territorialmente situado, à geração de soluções para problemas concretos da sociedade e à manutenção de acervos técnicos, biológicos, históricos e experimentais de valor insubstituível.

No entanto, justamente por sua natureza pública e por sua ligação direta com políticas estatais, tornam-se especialmente vulneráveis à negligência governamental. Quando o Estado enfraquece seus próprios institutos, ele não apenas corta gastos: ele sabota sua própria inteligência institucional.

A trajetória governamental que prejudica a ciência raramente se apresenta como destruição aberta. Em geral, ela opera por mecanismos mais silenciosos e por isso mesmo mais perversos. Não é necessário fechar formalmente um instituto para esvaziá-lo. Basta não repor quadros aposentados, congelar concursos, eliminar cargos vagos. É só deteriorar salários e carreiras.

É suficiente impedir a renovação geracional, ou impor burocracias desproporcionais, retardar recursos indispensáveis. Basta transformar a exceção em rotina e a escassez em método de gestão. Aos poucos, o que antes era um centro vivo de produção de conhecimento converte-se em estrutura fatigada. Algo dependente da abnegação de poucos servidores e pesquisadores que permanecem sustentando, com sacrifício pessoal, aquilo que já deveria ser política pública consolidada.

A tecnocracia e a gestão da injustiça, do abandono e do atraso

Há, nesse processo, uma forma particularmente cruel de violência institucional: a naturalização da precariedade. Espera-se que cientistas continuem produzindo apesar da falta de condições, que mantenham a excelência mesmo com equipes reduzidas, que preservem séries históricas mesmo sem apoio operacional, que respondam a demandas estratégicas mesmo sem reposição de pessoal, que inovem sem investimento, que resistam sem horizonte.

Cria-se, assim, uma cultura de heroísmo forçado, na qual o comprometimento dos pesquisadores é explorado como substituto da responsabilidade governamental. O problema dessa lógica é que ela romantiza a sobrevivência e esconde a erosão. O que parece resiliência, muitas vezes, é exaustão prolongada. O que se chama dedicação, em muitos casos, é apenas a tentativa ética de impedir que o desmonte se complete.

Os ideais tornam-se imprevisíveis quando já não há coerência entre a missão pública da ciência e a conduta do poder que deveria sustentá-la. Proclama-se a importância da pesquisa para o desenvolvimento nacional, mas desorganizam-se as estruturas que a tornam possível. Exige-se inovação, mas despreza-se a base científica que antecede qualquer inovação real. Defende-se modernização, mas dissolve-se a memória técnica acumulada em décadas.

Cobra-se produtividade, mas não se asseguram equipes, equipamentos, manutenção nem perspectiva de continuidade. Trata-se de uma inversão profundamente nociva: a ciência passa a ser cobrada como se fosse autossuficiente, quando, na verdade, ela é uma construção institucional delicada, coletiva e historicamente dependente de investimento público consistente.NO

Uma vez no deserto

Essa trajetória produz efeitos que vão muito além dos muros dos institutos. Quando a ciência pública é fragilizada, a sociedade perde capacidade de interpretar seus próprios problemas. Perde autonomia tecnológica. Perde inteligência territorial. Perde condições de formular políticas baseadas em evidências. Perde capacidade preventiva diante de crises sanitárias, ambientais, agrícolas, energéticas e climáticas.

Perde também soberania, porque passa a depender mais intensamente de conhecimentos, tecnologias e agendas produzidas fora de seus contextos e interesses. O enfraquecimento dos institutos, portanto, não é um problema corporativo, restrito aos pesquisadores. É uma amputação da capacidade civilizatória do Estado.

Quando são sistematicamente desvalorizados, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora: pensar profundamente deixou de ser prioridade; compreender antes de agir tornou-se incômodo; a paciência metódica da ciência passou a ser vista como peso diante da pressa administrativa e da superficialidade política. Nesse ambiente, o ideal científico deixa de ser um valor de Estado e passa a ser uma promessa circunstancial, acionada conforme a conveniência do momento.

Ao Deus dará

O mais grave é que a destruição institucional raramente é percebida de imediato por toda a sociedade. Um instituto pode parecer de pé mesmo quando internamente já foi comprometido em suas funções vitais. A fachada permanece, mas a capacidade de renovação foi interrompida. Os prédios existem, mas os quadros rareiam.

Os nomes persistem, mas os núcleos técnicos se esvaziam. Os arquivos sobrevivem, mas sem condições adequadas. Os programas seguem formalmente ativos, porém cada vez mais dependentes de esforços extraordinários. É o desmonte por inanição: lento, discreto, administrativo, porém profundamente eficaz em seus efeitos.

Por isso, refletir sobre ideais imprevisíveis na pesquisa científica é também denunciar uma forma de insinceridade estrutural. Não basta afirmar apoio à ciência em cerimônias, documentos ou campanhas institucionais, se as práticas de governo caminham em sentido contrário.

O verdadeiro ideal científico não se mede por declarações, mas por decisões: orçamento estável, carreira valorizada, reposição de quadros, autonomia técnica, manutenção de infraestrutura, planejamento intergeracional e confiança pública na pesquisa como função essencial do Estado. Sem isso, o ideal não passa de ornamento discursivo.

No horizonte do (im)provável

Defender a ciência e os institutos de pesquisa, portanto, não é pedir privilégio. É exigir coerência republicana. É lembrar que nenhuma sociedade enfrenta com dignidade seus desafios estruturais quando enfraquece os lugares onde o conhecimento é produzido com rigor, memória e compromisso público. A ciência não pode viver sob ideais imprevisíveis, porque sua natureza exige horizonte, continuidade e estabilidade.

Onde o governo oferece apenas hesitação, cálculo de curto prazo* e abandono disfarçado, instala-se uma fratura histórica: a de um estado que proclama desejar futuro, mas danifica persistentemente as instituições encarregadas de construí-lo.

Afonso Peche Filho – Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

*[N.E. Campeonato eleitoral.]

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Caderno Especial de Ciência para Estudantes, Professores, Pesquisadores e Interessados. ÆscolaLegal é um esforço coletivo de profissionais interessados em resgatar princípios básicos da Educação e traduzir informações sobre o universo multi e transdisciplinar que a envolve, com foco crescente em Educação 4.0, Tecnologia, Sustentabilidade, Ciências e Cultura Sistêmica.